EnglishPortugueseSpanish

O topo talvez seja o lugar mais desafiador para acolhermos e almejarmos verdadeiramente a diversidade

Fonte: Época Negócios

Uma das questões que mais se tornou notável para mim ao longo da minha carreira é como, por vezes, queremos a diversidade, almejamos a diversidade dentro das empresas, mas – de fato – estamos pouco preparados para ela.

Executivos e executivas incríveis têm exercido um papel fundamental dentro das empresas para trazer mais mulheresnegros e negrasLGBTQPIA+pessoas com deficiência, e todos os grupos de diversidade em seu quadro funcional e na liderança. No campo das ideias, a diversidade tem sido entendida como algo bom, que realmente torna ambientes mais competitivos, lucrativos, saudáveis e humanizados.

Esses executivos e executivas celebram e ficam felizes quando, por meio de programas de estágio ou trainees, jovens talentos de grupos de diversidade ingressam na empresa. No entanto, o que tenho notado cada vez mais – e talvez aqui demandássemos um mergulho na psique humana – é o quanto realmente diretores, vice-presidentes, presidentes e conselheiros de administração estão aptos a ter alguém, com um desses ou tantos outros marcadores de diversidade, como um par, um igual, concordando e discordando, dando opiniões às vezes contrárias às suas? Trazendo novos pontos de vistas, vivências, construções?

A sociedade em geral está tão acostumada a ter – ao longo da história – grupos diversos em posições de subalternidade, que mesmo quando trazemos esses profissionais para dentro das empresas continua-se a replicar a lógica de que essa pessoa sempre estará concordando, dando anuência e servindo.

Quando finalmente esse profissional está na mesma mesa, no mesmo patamar, discordando de uma opinião sua, questionando e contribuindo em uma tomada de decisão, então realmente a diversidade, a inclusão e a igualdade aconteceram. E aí está o desafio maior de respeito, empatia, escuta ativa e valorização.

Talvez essa seja uma das explicações do porquê ainda estarmos vendo nas empresas tanta dificuldade, ou até mesmo resistência, em realmente ter públicos diversos em cargos de nível gerencial acima. O diverso serve para ser funcionário, mas não serve para ser um igual. Veja, não acredito que isso seja consciente ou deliberado, mas os vieses inconscientes, firmes e fortes em ação, aliados ao racismo e machismo estrutural, à LGBTfobia e ao capacitismo, fazem com que isso continue ocorrendo.

E aqui, cabe uma revisão muito expressiva de cada um sobre si mesmo, principalmente de quem se considera aliado, aqueles que têm defendido e trazido a importância da diversidade e inclusão como causa. Você está preparado e preparada para empoderar, a tal ponto, mulheres, negros, pessoas com deficiência, LGBTQPIA+, para que essas pessoas realmente possam dizer o que pensam? Estar no mesmo patamar que você? Possam discordar de suas ideias? E construir, de igual para igual, com você a sociedade, empresas e uma visão de futuro mais inclusiva e igualitária? Você está preparado ou preparada para abrir mão do poder que tem hoje e partilhá-lo de verdade com grupos sociais que até então eram privados dele?

Posso dizer que a minha vivência se mostrou muito diferente em contextos empresariais, desde o momento no qual ingressei em grandes empresas como estagiária, como uma aprendiz, sempre pronta para aprender, colher ideias, dar suporte, reconhecendo que tinha muito a assimilar com colegas, profissionais mais experientes e contribuindo com a empresa desde uma posição hierárquica mais basilar. E 16 anos depois, já como gerente, diretora, fundadora com opiniões próprias, ainda em aprendizado – pois entendo que aprender é um processo constante –, porém agora concordando ou discordando, de igual para igual, da opinião dos meus pares, sempre de forma respeitosa, trago a minha experiência e perspectiva para a reunião e tenho de lutar para que minha voz seja igualmente escutada.

O que posso dizer é que, por vezes, senti que as pessoas se portavam como se eu já devesse estar grata por estar ali, ocupando aquele espaço, no qual não havia tido mulheres, negros, LGBTQPIA+ antes de mim. Agora, querer dar opinião de igual para igual? Isso, por si só, já era um ultraje. Já era demais.

O exemplo mais simples que posso dar, e que toda mulher ou pessoa negra que está lendo esse artigo já viveu, e que gostaria que todo homem começasse a observar, é o de que em uma sala, onde todos são igualmente gerentes ou diretores (têm exatamente o mesmo cargo), se há a demanda por fazer uma anotação ou uma ata com os principais pontos tratados na reunião, imediatamente todos esperam que essa função seja exercida pela mulher, pelo negro, pelo LGBTQPIA+ ali presente. É sutil, é simples, passa até despercebido, e não há demérito nenhum em fazer essa atividade, mas a questão que levanto aqui é por que essa função – tida como a de menos valia – imediatamente recai sobre aquele que tem o marcador identitário de diversidade?

Até hoje, quando estou em uma sala entre pares, e é preciso anotar algo, às vezes as pessoas olham diretamente para mim, e somente para marcar esse ponto e por processo educativo, eu digo que não vou anotar. Em geral, a função recai imediatamente para outra mulher ou negro no recinto. Pois bem, o desafio de hoje é esse: feche os olhos, visualize pessoas diversas na sala de reunião com você e pense que elas podem, ou não, concordar com você, e está tudo bem!
É fundamental que cada um de nós tenha finalmente protagonismo efetivo e lugar de fala. Isso certamente nos levará a novos lugares nos quais a visão hegemônica não foi capaz de nos trazer até hoje, de uma sociedade justa e igualitária.

*Liliane Rocha é CEO e fundadora da Gestão Kairós, consultoria especializada em Sustentabilidade e Diversidade, autora do livro Como ser um líder Inclusivo e premiada com o 101 Top Global Diversity and Inclusion Leaders

Inscreva-se!

Cadastre-se para receber novidades sobre ESG e outras notícias do mercado.

Ao preencher os dados do formulário você concorda com a nossa política de privacidade.

Gostou do artigo? Quero muito saber a sua opinião. Escreva um comentário!