Signatária Iniciativa Empresarial: CEO conta como despertou para as consequências do racismo

Fonte: Valor Econômico

Maurício Rodrigues lembra que mudou sua atitude em relação à questão racial quando foi chamado para participar de um encontro de líderes negros na época em que era executivo da Monsanto e morava nos Estados Unidos. Ao receber o convite, disse que não tinha tempo. O organizador não aceitou sua recusa. “Deixa eu te contar, você vai participar porque, você vai participar porque você é um líder, tem a responsabilidade de ser uma referência para outras pessoas negras e contribuir para essa discussão”, lembra o atual presidente da Bayer Crop Science para a América Latina. O executivo está no novo episódio do podcast CBN Professional, uma parceria do Valor e a rádio “CBN”.

“Até aquele momento eu não me via como uma pessoa que sofria as consequências do racismo e que sobrevivia dentro desse ambiente, então quanto menos falasse, melhor seria. Acho que muitas pessoas vivenciaram isso ao longo dos anos”, explica. Quando retornou ao Brasil em 2014, depois das discussões das quais participou nos Estados Unidos, onde a questão da diversidade e inclusão, segundo ele, estava mais avançada, lhe trouxeram uma nova consciência e a vontade de se envolver mais com o tema.

Engenheiro civil formado na Poli, com MBA em Wharton, Rodrigues teve uma carreira bem sucedida na área financeira. Trabalhou no banco BBA e depois ingressou na Monsanto, onde ficou por 19 anos. Quando a Bayer adquiriu a Monsanto em 2018, ele se tornou vice-presidente da área de finanças da Bayer Crop Science para a América Latina, até que em 2021 assumiu como CEO dessa operação.

Passou então a ter sob sua gestão na época 6,5 mil funcionários e uma região com faturamento em 2021 de € 6 bilhões. Era uma experiência nova para ele, conta. “Depois de trabalhar mais de 20 anos em uma área [financeira], você chega num ponto de expertise que nunca é questionado, a sua palavra tem um valor muito grande. Eu acho que a migração para liderar áreas mais amplas faz você passar por um processo de humildade, tem que ouvir mais do que falar por um bom tempo”, ressalta.

Na Bayer, Rodrigues

se aproximou do grupo afro da companhia. “Meu entendimento, meu próprio letramento aumentou significativamente”, diz. Ele conta que vem ajudando a abrir as portas para que mais pessoas negras tenham a oportunidade de chegar a cargos de liderança. “Por muitos anos você está condicionado a achar que é isso, vai ter uma ou outra pessoa negra na universidade e assim é a vida. Eu acredito que ao longo dos últimos anos uma reflexão chegou e veio com uma espécie de dor, porque você não se sente bem com aquele cenário.”

O programa de trainees com vagas para negros foi uma das iniciativas apoiadas por Rodrigues na Bayer. “Na primeira turma tivemos 25 mil candidatos para 19 vagas”, conta. “Pela minha posição, acho que tinha relevância o meu apoio, mas esse é um processo liderado por muitas mãos”, conta. Ele diz que foi preciso engajar os líderes e criar um movimento na empresa para dar certo. “Não tínhamos dúvidas sobre a qualidade das pessoas, mas ao mesmo tempo usamos ferramentas distintas, porque não adianta a gente continuar usando as mesmas ferramentas que não vamos conseguir atrair os talentos do jeito que esperávamos.”

Rodrigues diz que a questão racial precisa ser tratada de forma ampla. “Não existe a causa da diversidade sem a interseccionalidade, que inclui a orientação sexual, é isso que faz o processo ser mais inclusivo”, diz. Ele acredita que é preciso que a empresa ganhe maturidade para testar e acelerar a diversidade com sucesso. “Não é uma iniciativa que acontece da noite para o dia, é um processo”, pondera. Ele tem o desafio de incluir o tema nos 19 países da América Latina que lidera. “Não adianta acreditar que a discussão sobre inclusão na Argentina será a mesma do Brasil.”

Fora do trabalho, Rodrigues se reúne com um grupo de executivos negros, que se auto intitula “os 5%”, referindo-se ao percentual estimado de CEOs negros no país. “Passamos a conversar sobre o assunto, a compartilhar situações que vivenciamos, coisa que não fazíamos no passado”, conta. Ele diz que esse é um grupo de fortalecimento que quer contribuir com o debate no país. “Por mais que às vezes seja um trabalho extra, é extremamente prazeroso quando vemos alguém vendo referências e podendo sonhar.”

Sobre as mudanças na liderança que observa hoje, Rodrigues diz que uma das mais importantes é a busca pela colaboração, deixar as pessoas à vontade para ter opiniões e escutá-las. “Fomos treinados nos anos 90 e início de 2000 para a competição máxima. Era esperado que o líder tivesse uma opinião muito forte e a última palavra”. Ele diz que a empatia nunca foi valorizada, mas a pandemia ajudou a começar a mudar isso. “Acho que muito vem sendo desconstruído, eu acredito no poder da informação. Acho que a escuta e a empatia estão cada vez mais sendo valorizadas, está ficando óbvio, querendo ou não”, afirma. O episódio completo está no site do CBN Professional e nas plataformas Spotify, Apple Podcasts, Amazon Music, Deezer.

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